Prefiro ser filho da outra | Débora Camargo

Há alguns dias atrás acompanhei a artista Karola Braga na abertura da exposição “Prefiro ser filho da outra” em Londrina que reuniu o trabalho de 10 novos artistas brasileiros.  O trabalho de Braga encontrava-se logo na entrada do espaço da exposição o que convidava os visitantes a observar por um tempo considerável o trabalho da artista paulistana. Para quem não conhece o trabalho dessa jovem artista é impressionante perceber a curiosidade que suas obras causam no público devido aos personagens interessantes que surgem de suas narrativas. A primeira obra era um vídeo que apresenta um texto escrito que vai sendo digitado diante do expectador produzindo uma sensação de tempo real da escrita, ou seja, é como se o personagem escrevesse naquele exato momento em que a obra acontece. São 71 vídeos escritos, um vídeo para cada dia de exposição, o que torna praticamente impossível para o expectador experienciar a narrativa completa. Talvez seja exatamente sobre essa impossibilidade de capturar o tempo e da tentativa sempre frustrante de evitar que o tempo passe que se debruça o trabalho de Karola Braga. A obra intitulada “tentaremos não nos esquecer” ancora o visitante nesta sensação de ausência e perda, de uma memória que inevitavelmente se apaga, e no texto escrito surge um personagem que lamenta a despedida também inevitável da pessoa amada que está partindo para um lugar distante. A problemática da relação ausência vs presença parece ser uma temática que permeia grande parte da obra da artista que questiona: como não nos esquecer quando a própria memória é apenas um simulacro do que vivemos ou do que poderíamos ter vivido? Como apreciar uma obra apresentada em fragmentos que se performativa no tempo real de 71 dias? O trabalho nos faz questionar a própria materialidade do objeto artístico que se apresenta parcialmente diante do visitante e produz um efeito de sentido de perda, seja pela própria história que está sendo narrada ou pela própria experiência vivida pelo expectador que precisa esperar o tempo da digitação para ler apenas um fragmento de uma obra de arte que mesmo em sua totalidade leva o visitante a compartilhar a fugacidade do próprio objeto artístico assim como a experiência da personagem inscrita na obra.

A artista leva ao extremo esta sensação de ausência do objeto artístico na obra “ estava te olhando para ver se você me olhava de volta”. O visitante encontra uma plaquinha na exposição que descreve uma performance que aconteceu em 2015 em que atores flertavam com os visitantes. A dúvida se a performance está acontecendo ou não colabora com essa ideia de ausência da obra de arte e da impossibilidade de experimentá-la ao mesmo tempo que a possibilidade do flerte está presente.

Já o trabalho que, ao menos no dia da abertura, visivelmente chamou mais a atenção dos visitantes é uma sequência de quadros, com fotos e textos que contam a história de um personagem que usa o seu próprio perfume para conquistar seus amores e paixões. A narrativa é linear e a artista usa de diversos recursos para criar no leitor a sensação de que está diante de uma história  real, seja pelo texto escrito que está em primeira pessoa do singular, seja pelas fotos que são altamente referenciais (uma fotografia da mão do personagem segurando o perfume, uma fotografia de uma tela de celular com uma conversa de whats app, etc). Ou seja, toda parte visual da obra ancora e instiga o visitante a crer que está diante de uma história real. Portanto, o texto visual marca a presença da memória de fatos que efetivamente acontecem na narrativa e que simulam uma história que realmente aconteceu. A ausência, no entanto, está no conteúdo da própria narrativa. Já que a personagem conquista  por meio do perfume, ou da memória do perfume dela. É enviando o seu perfume, ou borrifando seu perfume em outras pessoas ou nos lençóis de seus amados que ela marca a sua presença na vida deles mesmo quando está ausente. Ora, o cheiro  é, sem dúvida, um elemento que desperta a lembrança. A própria artista fala em outros trabalhos sobre o potencial do cheiro para despertar a memória olfativa. Assim, a personagem se faz presente na vida de suas paixões e tenta conquistá-las utilizando o seu perfume como artifício para estar presente quando não está. Além de divertidas as histórias de conquistas da personagem são belas e prendem facilmente o visitante na narrativa porque seja para querer ser conquistado pela personagem ou para conquistar como ela, nunca é demais aprender sobre o jogo da conquista e todos podem se relacionar com este tipo de temática.

Débora Camargo - Mestre em Linguística e Semiótica pela Universidade de São Paulo. 

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