Esquinas da arte e do olfato em São Paulo.

Este é um momento animado para experimentar a esquina entre olfato e arte em São Paulo: Karola Braga mostra a instalação Sillage de la Reine na Faap e Laercio Redondo pontua a Pinacoteca de São Paulo de provocações.

O trabalho de Karola explora como perfume pode construir presença na ausência do corpo físico. Da presença da fragrância surge espontaneamente uma narrativa: quem usa esse perfume?

Meu primeiro contato com Karola foi em 2015, quando recebi um e-mail. Ela pedia ajuda para solucionar o que se tornou a instalação Make me Present, quando preencheu um grande corredor da FAAP com seu perfume.

Em 2017 Karola partiu para uma residência em Paris — foi daí que surgiu este trabalho. Em Sillage de la Reine Karola apresenta 9 supostos perfumes de Maria Antonieta sem qualquer identificação. Estão lá desde o mais barato, vendido em lojas de souvenir, até o que seria a fragrância de fato. Este foi reconstruído pelo perfumista Francis Kurkdjian em parceria com o Castelo de Versalhes, a partir de uma fórmula encontrada na Biblioteca Nacional Francesa — Kurkdjian é o criador de Narciso Rodriguez for Her, Le Mâle, entre muitos outros nas listas de mais vendidos.

Na sua pesquisa Karola encontra um mito para sustentar a autenticidade de cada perfume, espelhando os mitos que envolvem Maria Antonieta e perfumes: que teria sido descoberta durante a fuga pela fragrância opulenta, que foi guilhotinada segurando três pequenos frascos de perfume. Algum perfume é o verdadeiro? Qual seria o mais próximo? É possível confiar em algum relato? Karola pesquisou na Biblioteca Nacional Francesa pela fórmula que Kurkdjian citou e… não encontrou nada.

Uns dos perfumes soam francamente atuais, florais frutados e adocicados que tem mais cara de garota nas ruas de qualquer grande cidade que de rainha no século XVIII. Outros destoam: um amadeirado moderno, outro com o talcado quase metálico característico da íris. Frequentemente a gente relaciona essa impressão talcada com o cheiro de maquiagem, de perfume caro e sofisticado. A explicação está ali no próprio período.

Era com o talco da íris (o que se usa é parte da raíz) que se empoavam rosto e perucas da realeza. A gente continua associando talcado — pense no Flower by Kenzo — com sofisticação: o “perfume de mulher rica” que se imagina costuma ser um perfume talcado. Hoje o absoluto de íris é a matéria prima mais cara da perfumaria.

Os perfumes estão impregnados num polímero que foi moldado na forma de um frasco antigo — a cor de cada objeto é a mesma do perfume. A ideia é passear e farejar e se perder nas possibilidades.

Já a instalação de Laercio Redondo propõe um circuito por todo o prédio da Pinacoteca. São 15 peças ao todo, algumas acompanhadas de fragrâncias, que comentam uma série de obras (ou ausência delas) no acervo do museu.

Quem orienta o percurso é um mapa no folheto da exposição: na verdade um estojo para guardar os cartões que acompanham cada obra. Um pequeno texto contextualiza o comentário e um adesivo contém a fragrância — é só abrir e levar o cartão ao nariz.

Aqui o uso do olfato frequentemente é para expandir o significado das imagens. O quadro do bandeirante ganha cheiro de asfalto: as trilhas dos índios foram as trilhas dos bandeirantes, depois transformadas nas estradas para o interior do estado. Às vezes é para dar vida: o quadro Amolação interrompida, de Almeida Júnior, ganha justamente o cheiro do metal.

Fernanda Pitta, curadora da Pinacoteca, e Renata Abelin, diretora de marketing da casa de fragrância Drom, que desenvolveu as fragrâncias, me contaram de algumas dificuldades do processo.

Justo a fragrância para acompanhar a primeira obra do circuito, precisamente a de mais impacto, a única dispersa no ar e exposta no vão central do edifício, não correspondia ao pedido. Deveria retratar o ateliê de um pintor — o perfumista recriou o cheiro da tinta a óleo mas faltava algo. Depois de uma visita a um estúdio acharam a peça: o óleo de linhaça usado para diluir as tintas. Só diluir o óleo de linhaça em álcool e acrescentar à fragrância já feita. Seria fácil se o óleo de linhaça fosse perfeitamente solúvel ao que é adequado para a composição de uma fragrância, o que não é.

 

A segunda dificuldade veio da aplicação: como conter e prever o comportamento da fragrância no espaço? Ela está presente no vão central mas, no momento da minha visita, era mais intensa no banheiro masculino logo ao lado e no piso superior do prédio. A dupla já previa alguns ajustes.

Dênis Pagani - expert em perfume e autor do site 1 nariz.

Clique aqui para acessar o texto original. 

<<<