Deve haver um poema que fale sobre nós | Débora Camargo

Texto da exposição Deve haver um poema que fale sobre nós, Oficina Cultural Oswald de Andrade, São Paulo, 2019

Deve haver um poema que fale sobre nós é o mais recente trabalho de Karola Braga e, assim como em trabalhos anteriores, a artista explora por meio da memória como as relações humanas manifestam-se em ambientes públicos e privados. O trabalho é uma instalação composta por azulejaria perfumada, fotografias e texto escrito.

A azulejaria colocada na frente da casa é inspirada na escrita cuneiforme, uma das mais antigas da civilização humana que foi criada por volta de 3.500 a.C. Os sumérios utilizavam a argila para escrever e tal escrita foi muito utilizada como meio de comunicação da época. As frases gravadas nos azulejos, no entanto, simulam a forma como nos comunicamos atualmente por meio de redes sociais e aplicativos. Se tal comunicação moderna parece extremamente efêmera se comparada a escrita cuneiforme é justamente dessa relação que surgem as personagens e a narrativa criada pela artista.

Portanto, por meio dos diálogos gravados nos azulejos, o visitante é convidado a mergulhar na intimidade das duas personagens. Muito além de declarações românticas e da intimidade sexual do casal, para um espectador mais atento, a obra de Karola Braga apresenta grandes nomes da literatura ocidental e, também, problematiza o próprio trabalho da artista no interior da obra. 

Além disso, os azulejos exalam dois cheiros distintos e proporcionam ao visitante uma experiência olfativa. Como a própria artista afirma: “O cheiro é carregado de construções simbólicas e culturais e oferece ao espectador uma forma de estímulo que possa vir a ativar memórias, no âmbito de seus contextos, levando-o a suas próprias narrativas”

Já no interior da casa, encontra-se o trabalho intitulado Prólogo, um relato por meio de texto escrito e fotografia que conta o início da história de amor entre as duas personagens explorando o ambiente privado em que a relação aconteceu. Contudo, ao contrário de muitas histórias de amor entre mulheres que ficaram enclausuradas no interior de um espaço privado, físico ou virtual, a narrativa de Karola Braga ultrapassa esse limite e transborda para o exterior da casa, isto é, para um espaço público em que as memórias das personagens estão gravadas nos azulejos perfumados.

 

Assim, Deve haver um poema que fale sobre nós fala de uma relação amorosa entre duas mulheres e a importância de explorar este tipo de narrativa no mês da visibilidade lésbica, problematiza a questão de como nos comunicamos atualmente através de mensagens virtuais, breves, instantâneas e efêmeras. E, ainda, o trabalho de Karola Braga reforça que uma história de amor tem a potência de falar mais sobre nós e de nossas experiências do que qualquer outro tipo de narrativa. 

Débora Camargo - Mestre em Linguística e Semiótica pela Universidade de São Paulo.

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