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A vida não é um mar de rosas | Débora Camargo

Texto da exposição A vida não é um mar de rosas, Complexo Cultural Funarte SP, São Paulo, 2020

A artista Karola Braga, em sua terceira exposição utilizando rosas, demonstra como um símbolo tão universal adquire sentidos diversos quando inserido em contextos histórico-culturais diferentes. Enquanto no Irã as rosas simbolizavam o cheiro do profeta Maomé e na França, o perfume da rainha Maria Antonieta; no Brasil, a artista fez um recorte linguístico escolhendo a expressão popular "um mar de rosas".

Essa metáfora, frequentemente utilizada no linguajar cotidiano, significa um período de tranquilidade, calmaria, ou seja, um período feliz e ausente de conturbações. O trabalho, no entanto, afirma justamente o oposto: “a vida não é um mar de rosas” - frase que tornou a expressão popular ainda mais conhecida.

A experiência humana por si só é caótica e cheia de decepções, frustrações e desapontamentos que são intrínsecos à vida de todos. Apesar de vivenciarmos momentos de tranquilidade, beleza e paz; a finitude da existência,  e a iminência da morte produzem uma desordem característica da vida. A impossibilidade de ser eterno nos fragiliza diante de nossos destinos e, entre o nascer e morrer, estamos condenados a momentos de frustrações e infelicidade – é inevitável.

Uma solução é entregar-se a promessa de um paraíso divino onde, finalmente, a vida seria um mar de rosas. Até lá, talvez, seja por meio da cultura e mais especificamente da Arte que podemos organizar o caos e, assim, encontrar respostas mais lógicas ou lúdicas a nossa própria experiência, dotando-a de sentido. E os sentidos que criamos e a beleza que produzimos nos tranquilizam e dão uma ilusão de controle para seguirmos mais firmes na labuta diária. É essa reflexão que o trabalho “a vida não é um mar de rosas” nos propõe.

Por meio da experiência artística, Karola Braga nos entrega um mar de rosas de gesso, cujo cheiro se expande no ambiente propondo a possibilidade de um período de tranquilidade ao visitante em que, ao menos por um instante, todos possam deixar as mazelas de lado. E ainda encontrar um alento: a voz do “outro” que consola e lamenta a realidade dura da vida, cheia de decepções e infelicidades inevitáveis: eu sinto muito por isso.

Débora Camargo - Mestre em Línguistica e Semiótica pela Universidade de São Paulo. 

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